O que é murdoku e por que ele vicia tanto
O quebra-cabeça que mistura sudoku com cena de crime: de onde veio, como funciona exatamente e por que é diferente do sudoku comum. Com casos grátis para jogar.
Se você viu recentemente nas livrarias um livro de quebra-cabeças com uma cena de crime desenhada na capa, viu um murdoku. O nome vem da junção de murder (assassinato, em inglês) e sudoku, e descreve bem o que ele é: a lógica de posicionamento do sudoku colocada dentro de um romance policial em miniatura. Por isso muita gente o chama simplesmente de sudoku de assassinato.
Quem popularizou a ideia foi o criador de quebra-cabeças Manuel Garand, cujo livro de enigmas de lógica e assassinatos circula há meses e que, além disso, publica casos grátis no site dele, com novidades várias vezes por semana. Em muito pouco tempo, o formato deixou de ser curiosidade e virou categoria própria nas prateleiras de lançamentos.
Mas há uma confusão que vale desfazer logo de início, porque ela muda completamente o jeito de jogar.
Murdoku não é sudoku
Os dois compartilham uma regra e mais nada. No sudoku você preenche números; no murdoku você posiciona pessoas.
O tabuleiro é uma grade que representa um cenário — uma mansão, um hotel, um teatro — dividido em cômodos. Você tem um grupo de suspeitos e uma vítima, e as regras são estas:
- Cada suspeito ocupa uma casa.
- Não pode haver dois suspeitos na mesma linha nem na mesma coluna. Essa é a parte que vem do sudoku.
- Os cômodos funcionam como os blocos 3×3: são regiões do tabuleiro que as pistas usam para se referir a áreas.
- E a regra que transforma tudo num mistério: o assassino é quem termina sozinho com a vítima no mesmo cômodo.
As pistas são escritas em linguagem comum. Coisas como “a condessa estava ao norte do coronel”, “o mordomo não pisou na cozinha”, “no bar havia exatamente duas pessoas”. Em nenhum momento há números para somar.
Por isso, se você vem do sudoku, a sensação no começo é estranha: a técnica que funciona não é varrer números, e sim ir eliminando possibilidades. Ele está muito mais perto dos clássicos problemas de lógica — aqueles de “cinco casas, cinco cores, cinco profissões” — do que do sudoku. O sudoku empresta o tabuleiro e uma regra; o resto é outra coisa.
Por que vicia mais do que deveria
Um sudoku bem-feito dá uma satisfação concreta: a grade completa. É limpa, mas abstrata. Um murdoku te entrega um nome, e isso funciona de outro jeito na cabeça.
Faz sentido. Ao posicionar suspeitos com nome em cômodos com nome, o quebra-cabeça deixa de ser uma tabela e vira uma cena que dá para imaginar. E, como o resultado é uma acusação, o último passo não soa como “terminei”, e sim como “peguei você”. É o mesmo mecanismo que sustenta qualquer romance policial, aplicado a um exercício de lógica de dez minutos.
Além disso, há um detalhe de design que ajuda muito: a culpa não é um dado independente, é uma consequência. Não existe uma pista escondida dizendo quem foi. O nome aparece quando você termina de posicionar todo mundo, ou seja, não dá para trapacear pulando para o final. Você precisa resolver o quebra-cabeça inteiro.
O que faz um murdoku ser bom ou ruim
Depois de gerar muitos deles, três coisas separam um caso decente de um caso frustrante:
A solução precisa ser única. Parece óbvio, mas não é. Se o quebra-cabeça admite duas soluções válidas, em algum momento ele obriga você a chutar, e chutar não é resolver. Um caso bem construído pode ser verificado: percorrem-se todas as posições possíveis no tabuleiro e confirma-se que só uma cumpre todas as pistas.
As pistas precisam ser enxutas. É fácil escrever um caso com vinte pistas verdadeiras. O problema é que, com vinte pistas, o quebra-cabeça se resolve quase só lendo, sem deduzir nada. Um bom caso tem o número mínimo de pistas com o qual continua solucionável: tire qualquer uma e ele deixa de ter solução única.
As pistas negativas valem muito. “Não estava na cozinha” parece fraca, mas, se a cozinha tem quatro casas, você acabou de eliminar quatro possibilidades. E a melhor pista do formato é a que diz que alguém não pisou no cômodo do crime: ela descarta um culpado antes de você ter posicionado qualquer pessoa.
Murdoku, Murdle e os problemas de lógica
Eles costumam ser confundidos porque chegaram quase ao mesmo tempo e as capas se parecem.
- O murdoku é espacial. Há um mapa, e as pistas falam de posições: ao norte de, ao lado de, em tal cômodo.
- O Murdle, de G. T. Karber, usa uma grade de lógica clássica: linhas de suspeitos, colunas de armas e locais, e você vai marcando ✓ e ✗ nos cruzamentos. Não há mapa.
- Os problemas de lógica de sempre são a mesma coisa que o Murdle, sem a moldura do crime.
Os três treinam o mesmo músculo — eliminar possibilidades até sobrar uma só —, mas a sensação é diferente. Se você gosta de imaginar o cenário, o murdoku vence. Se prefere o prazer seco de preencher uma tabela, o Murdle.
Onde jogar grátis
No MenteBrillante, criamos a nossa própria versão do formato. Nós a chamamos de Criminoku — o nome Murdoku pertence ao livro de Garand, e não íamos nos apropriar dele — e geramos os casos nós mesmos, com solução única verificada um por um.
- Jogar os casos no navegador: casos em três níveis, grátis e sem cadastro. As casas permitidas vão sendo marcadas conforme você posiciona os suspeitos, e a partida fica salva se você fechar a aba.
- Casos para imprimir: seis por folha, com as respostas no final. Para resolver a lápis, que nesse tipo de quebra-cabeça tem o seu charme.
E, se você curte o lado da lógica pura, separamos também charadas com resposta para treinar o olhar desconfiado de detetive.